Elas trabalhavam, mas a conta nunca fechava a favor delas. Tudo o que comiam, vestiam, usavam para se cuidar virava dívida. E a dívida, segundo a investigação, era justamente a corrente invisível que as prendia dentro de uma boate no Oeste catarinense.
A Justiça do Trabalho de Xanxerê determinou o bloqueio de cerca de R$ 300 mil em bens de um homem e uma mulher, proprietários do estabelecimento em São Lourenço do Oeste. O casal é acusado de submeter trabalhadoras a condições análogas à escravidão para fins de exploração sexual. A decisão liminar foi obtida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em Chapecó.
Conforme a ação, as mulheres eram levadas a contrair dívidas consideradas impagáveis com os próprios donos da boate. A cobrança incidia sobre tudo: alimentação, roupas, produtos de higiene e até medicamentos, sempre com valores excessivos. Quanto mais tempo passavam ali, mais deviam. E quanto mais deviam, menos liberdade tinham para ir embora.
Mulheres eram monitoradas por câmeras
Segundo a investigação, conduzida pela Polícia Civil de São Lourenço do Oeste, a saída do local era dificultada de forma deliberada. As trabalhadoras eram monitoradas por câmeras de vigilância e tinham os celulares retidos, o que cortava o contato com o mundo de fora e qualquer chance de pedir ajuda sem ser vista.
Além do bloqueio, a Justiça acolheu pedido do MPT-SC para que os responsáveis se abstenham de submeter trabalhadoras a situações de trabalho escravo contemporâneo e de exploração sexual. Em caso de descumprimento, foi fixada multa de R$ 50 mil por infração, aplicada individualmente a cada trabalhadora encontrada em situação irregular.
O dinheiro bloqueado tem destino certo. A medida busca assegurar o pagamento de verbas rescisórias e indenizações por danos morais individuais a quatro trabalhadoras, além de garantir eventual reparação por dano moral coletivo causado à comunidade.
O processo tramita sob sigilo para proteger a identidade das vítimas e evitar que elas passem novamente pela situação de sofrimento. A ação civil pública foi ajuizada após a apuração da Polícia Civil, e o caso segue em tramitação na Justiça do Trabalho.
























