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“Vou mostrar tudo pra ele depois”: esposa de empresário preso pelo GAECO em SC ameaça “urubuzada”

Alvo de três pedidos de prisão do MPSC, que a aponta como operadora financeira do cartel da Operação Pão e Circo, Maria Clara Martins apareceu debochada no Instagram após a prisão do marido em Itapema. Segundo documentos obtidos pelo Jornal Razão, ela teria movimentado cerca de R$ 5 milhões, apesar de se apresentar como "dona de casa".

Maria Clara Martins em vídeo no Instagram e trecho de documento do MPSC
Foto: Reprodução
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O marido está preso desde o dia 7 de julho, apontado pelo GAECO como líder de um cartel que teria fraudado mais de 400 licitações de shows em Santa Catarina. Ela é alvo de três pedidos de prisão preventiva do Ministério Público, que a descreve como operadora financeira do esquema. Mas quem abriu o Instagram de Maria Clara Martins na quinta-feira (16) não encontrou nada parecido com abatimento: encontrou um recado debochado para “amigas, curiosos e fofoqueiros” e uma ameaça direta ao que ela chamou de “urubuzada”.

“Oi, amigas. Oi, curiosos. Oi, fofoqueiros”, começa a empresária de Itapema, no Litoral Norte de Santa Catarina, esposa de José Clemir Spinelli, o único preso da Operação Pão e Circo, capturado pelo GAECO no dia em que completava 54 anos. No vídeo, ela avisa que ninguém deve esperar vê-la falar do assunto no perfil e rebate quem imaginava outra postura: “achando que eu deveria estar debruçada numa cama, chorando, morrendo. Ah, meu Deus, acabou minha vida. A minha vida não acabou. A vida do meu marido não acabou”.

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O tom sobe no fim da gravação, quando ela se dirige aos homens que passaram a responder seus stories depois da prisão do marido.

“Agora eu só quero dizer uma coisa pra urubuzada, que tá curtindo meus stories. Eu ainda tenho marido, tá, gente? Vocês me respeitem e vocês parem com isso, porque eu vou mostrar tudo pra ele depois”, disparou Maria Clara Martins.

Capa do vídeo do YouTube

Ela ainda promete que a situação “vai ser resolvido e vai ser esclarecido” e que “logo estaremos juntos de novo, se Deus quiser”.

A “dona de casa” dos milhões

O contraste entre a leveza do vídeo e o tamanho da encrenca, porém, está escancarado nos autos. Informações obtidas com exclusividade pelo Jornal Razão apontam que Maria Clara teria movimentado cerca de R$ 5 milhões, cifra que reforça o papel que o Ministério Público de Santa Catarina atribui a ela dentro da organização: o de “operadora financeira, sócia de fato de empresas e uma das principais integrantes do núcleo central do cartel”.

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Documento do MPSC descreve Maria Clara Martins como ‘operadora financeira, sócia de fato de empresas e uma das principais integrantes do núcleo central do cartel’

A ironia registrada pelos próprios investigadores está na forma como ela se apresenta. Em manifestação encaminhada à Justiça, o MPSC destaca que as movimentações teriam sido realizadas por Maria Clara Martins, “que se autodenomina apenas como ‘dona de casa’, condição manifestamente incompatível com o vultoso volume de operações bancárias identificadas”. O documento anexa o print do perfil dela no Instagram, seguido por 45 mil pessoas, onde a bio resume: “Esposa troféu não, dona de casa”, ao lado de “família, beleza & produção de eventos” e da marcação da empresa do casal.

Trecho de manifestação do MPSC aponta que as movimentações teriam sido realizadas por Maria Clara Martins, que se autodenomina ‘dona de casa’ no Instagram, condição apontada como incompatível com o volume de operações bancárias identificadas

Segundo o MPSC, Maria Clara integra o eixo empresarial do esquema ao lado do marido, de Carlos Eduardo Cunha, o Dudu Cunha, de Eder Coelho e do casal Cleiciane Gomes e Valmir Alberto da Silva. Conforme a investigação, o grupo teria capturado contratações públicas de shows e festas em dezenas de municípios catarinenses, somando mais de R$ 50 milhões em contratos e uma taxa de vitória próxima de 75%, sustentada por ajustes prévios, editais direcionados e concorrência simulada. Em uma das gravações citadas nos autos, a atuação conjunta entre a CJR Produções e a SP Eventos, empresa de Clemir e Maria Clara, seria confirmada em tom de disputa organizada contra grupos rivais, com a fala “vamos pra guerra”.

Trecho de manifestação do MPSC cita gravação que confirmaria a atuação conjunta entre a CJR Produções e a SP Eventos, de Clemir Spinelli e Maria Clara, com a fala ‘vamos pra guerra’

O áudio dos R$ 350 mil

Um dos elementos mais graves contra ela, de acordo com o Ministério Público, é um áudio interceptado em que a própria Maria Clara falaria sobre o dinheiro de um prefeito dentro do negócio da família. “Ah, para eles tirarem os 350 mil do lucro, né? Porque o acordo deles é o primeiro 350 mil que o Xandão investiu. Ele ficar para ele e o resto ser meio a meio”, diz a gravação citada nos autos, que segue: “é difícil, imaginar uma pessoa que é um prefeito da cidade, digamos assim, que tem outras obrigações também”.

Na leitura dos promotores, a mensagem revelaria que Alexsandro Kohl, o Xandão, então prefeito de Aurora, teria atuado como investidor oculto da Expo Aurora, aportando R$ 350 mil no evento, valor que seria restituído a ele com o lucro líquido dividido entre o prefeito, Spinelli e a própria Maria Clara.

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Manifestação do MPSC cita áudio encaminhado por Maria Clara Martins sobre aporte de R$ 350 mil que teria sido feito pelo então prefeito de Aurora na Expo Aurora

Os pagamentos da festa reforçaram a suspeita. Segundo o MPSC, a Prefeitura de Aurora antecipou R$ 159.920,00 quinze dias antes do evento, em desacordo com o edital, e a empresa do casal acabou recebendo R$ 439.540,00 por um contrato de R$ 399.800,00, uma diferença de R$ 39.740,00 sem justificativa formal identificada no portal da transparência municipal.

Flagrada entregando pulseiras de camarote

A empresária também foi flagrada em campo. Em diligências realizadas em janeiro deste ano na 5ª ExpoTrês Barras, no Planalto Norte, o casal foi visto exercendo funções típicas de organizadores do evento, inclusive entregando pulseiras de acesso à área de camarotes, conforme a manifestação do Ministério Público. O detalhe: a empresa deles havia perdido aquela licitação, com um lance de exatos R$ 1.000 acima da vencedora, padrão que os promotores classificam como simulação de disputa para blindar um resultado previamente ajustado.

Registro anexado pelo MPSC mostra o casal durante a 5ª ExpoTrês Barras, evento em que, segundo a manifestação, os dois teriam exercido funções típicas de organizadores, incluindo a entrega de pulseiras de camarote

O caso ganhou as redes muito antes do vídeo dela. A própria manifestação do MPSC registra a repercussão social do esquema depois que um vídeo sobre a Festa da Cebola de Ituporanga viralizou, expondo o que os promotores chamam de descrédito institucional gerado pela reiterada atuação do grupo empresarial investigado.

Manifestação do MPSC cita a repercussão social do caso após vídeo sobre a Festa da Cebola de Ituporanga viralizar nas redes

Três pedidos de prisão negados

O Ministério Público pediu a prisão preventiva de Maria Clara pela primeira vez em setembro de 2025, numa representação de cerca de 300 laudas. A medida foi negada numa decisão de apenas seis páginas, e os promotores voltaram à carga com um agravo em março de 2026 e uma nova reiteração em maio, sempre listando o nome dela entre os seis empresários cuja prisão consideram imprescindível. Para o órgão, manter o núcleo central solto permite que o esquema continue rodando por meio de empresas registradas em nome de laranjas, “com mudanças constantes”.

Quando a Operação Pão e Circo saiu às ruas, com 50 mandados de busca e apreensão em 19 municípios, um prefeito foi afastado e só Spinelli foi para a cadeia. Maria Clara permaneceu em liberdade, submetida a medidas cautelares como a restrição para contratar com o poder público e a proibição de contato com investigados e testemunhas. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina também determinou o bloqueio de cerca de R$ 9 milhões em bens e valores dos investigados, e o pedido de prisão do núcleo empresarial segue pendente de julgamento definitivo.

No vídeo, ela garante que não tem do que se envergonhar. “Não tenho vergonha do que aconteceu, não tenho nada pra esconder, e eu realmente não sinto a necessidade de me explicar pra quem já decidiu não me entender”, afirmou, antes de encerrar dizendo estar “leve” e convocar os seguidores de volta “à programação normal”.

Leia tudo sobre o caso no Jornal Razão

O Jornal Razão acompanha a Operação Pão e Circo desde antes da deflagração e revelou, com exclusividade, os bastidores dos pedidos de prisão. Confira a cobertura completa:

A reportagem tenta contato com a defesa de Maria Clara Martins e dos demais investigados, e o espaço segue aberto para manifestações. Vale lembrar que todos são presumidamente inocentes até o trânsito em julgado de eventual condenação, e que os artistas contratados para os eventos citados não são alvo da investigação.

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