Na província do Bengo, a cerca de nove mil quilômetros do rancho onde ele mora no Sul de Santa Catarina, quase 500 crianças vão abrir um livro didático pela primeira vez na vida. O material chega na próxima semana. Quem pagou a conta foi uma cantora sertaneja que nunca pisou lá, e quem construiu a escola foi um influenciador mais conhecido no Brasil pelas caminhonetes apreendidas do que por qualquer outra coisa.
Antônio César Rincon Filho, de 25 anos, o @rincon061 para os mais de 4 milhões de seguidores, publicou nesta segunda-feira (13) a inauguração da Escola Antônio César Rincón Filho, unidade educacional para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade em Angola. A escola leva o nome do pai dele.
Natural de Cristalina, em Goiás, Rincon é morador de Araranguá, no Sul catarinense, desde junho do ano passado, quando divulgou o rancho de 7,6 hectares que construiu no interior da cidade. O local tem mansão de 500 metros quadrados em estilo texano, cavalos, ovelhas, galpão, lago e mini campo de futebol. “A partir de agora, eu apresento pra vocês um pedacinho do meu Texas aqui no Brasil”, disse ele no vídeo de apresentação.
A escola em Angola nasceu de uma viagem feita a convite do projeto Zuzu for Africa, ONG que atua em missões humanitárias e no resgate da infância de crianças em comunidades da região. Em outubro do ano passado, ao conhecer a realidade local, o influenciador decidiu comprar e reformar a instituição, que atende mais de 500 crianças. “A educação é a base de tudo. Ver essas crianças com tanta vontade de aprender me tocou profundamente. Se eu puder mudar a realidade de algumas delas, já valeu a pena”, declarou na ocasião.
Na inauguração, Rincon revelou que Ana Castela enviou uma doação para a compra de material escolar. Cerca de 500 kits foram encaminhados à ONG. Bruna Madureira, fundadora da instituição, informou que todos os estudantes vão receber o material didático graças à cantora, e que esta será a primeira vez que os alunos da escola terão livros. “Aquela menina é sensacional”, completou o influenciador.
A cantora, apontada como affair dele, explicou nos stories que não conseguiu viajar por conta da agenda de shows, mas procurou as fundadoras da ONG para ajudar de alguma forma.
Quero que todo mundo saiba que não é porque a gente não posta que a gente não faz. A gente faz muita coisa, só que fica quietinho. É no silêncio que dá certo, quando ninguém sabe. Quando deu ‘bão’, a gente conta, porque são notícias boas que todo mundo deveria saber. Porque fofoca ruim o Instagram tem demais.
A frase dela resume bem o paradoxo da carreira do próprio Rincon.
O outro lado da conta
Quem acompanha o noticiário sobre o influenciador dificilmente associa o nome dele a escola. Associa a apreensão. Em maio deste ano, a Polícia Rodoviária Federal recolheu a caminhonete dele em Ponta Grossa, no Paraná, por modificações irregulares nas rodas e pneus não regularizadas. Segundo a corporação, desde 2024 o veículo foi autuado 21 vezes só pela PRF, incluindo quatro multas por excesso de velocidade.
Em julho de 2025, quatro caminhonetes dele foram retidas de uma vez pela PRF, a caminho de Sinop, no Mato Grosso, por adulteração nos escapamentos. Ele filmou tudo e tratou no bom humor. “É, meus amigos, dessa vez foram quatro caminhonetes apreendidas. E loucura, rapadura é doce, mas não é mole, né?”, comentou. Sobre uma delas, admitiu: “Essa aqui eu não vou nem defender porque ficou pronta agora, né? Não tem nem o que falar.”
Há mais. Em 2023, uma caça ao tesouro promovida por ele em Paracatu, em Minas Gerais, terminou em depredação de patrimônio histórico e resultou em restrição judicial a eventos e multa de R$ 500 mil em caso de descumprimento. Em maio de 2025, entrou em luta corporal com outro influenciador num encontro de caminhonetes em Palmital, no interior de São Paulo.
O que não vira manchete
Em novembro do ano passado, um tornado devastou Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná. Rincon mobilizou os seguidores e arrecadou mais de R$ 1 milhão para as vítimas. Não parou no Pix: viajou mais de mil quilômetros até o município, acompanhado de amigos, levando fardos de água e outros suprimentos. Chegou na cidade numa segunda-feira e foi recebido pelos moradores.
Nas enchentes do Rio Grande do Sul, o roteiro foi parecido. O influenciador puxou uma corrente de solidariedade entre os seguidores e mobilizou doações e mantimentos para as famílias atingidas, num momento em que a logística até as áreas alagadas era o gargalo de todo mundo.
Nenhuma dessas ações rendeu a repercussão que uma caminhonete apreendida rende em duas horas. É uma equação conhecida de quem trabalha com internet: o escândalo tem velocidade, a benfeitoria tem que ser empurrada.
Rincon disse que pretende construir novas escolas e postos de saúde em diferentes regiões da África nos próximos três anos, com atenção especial a Angola. Os kits escolares bancados por Ana Castela têm entrega prevista para a próxima semana.





















