As praias do litoral catarinense se transformaram no destino final de um número incomum de aves neste 2026. Já são 1.910 pinguins-de-magalhães encontrados mortos no estado, o maior acumulado para um primeiro semestre desde que a contagem começou, em 2015. O balanço foi divulgado na sexta-feira (19) pelo Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS).
O volume saltou muito acima do que os pesquisadores estão acostumados a ver. Segundo o coordenador-geral do PMP-BS em Santa Catarina e no Paraná, André Barreto, a média histórica para junho fica em torno de 350 animais, e o recorde anterior batia em 1,2 mil a 1,3 mil. O número atual, portanto, já encosta no teto de tudo o que o projeto registrou em uma década.
“A gente costuma ter, para junho, por volta de 1,2 mil, 1,3 mil, que é o máximo que a gente já teve. A nossa média é em torno de 350. Então, realmente, é um número que está nos chamando atenção”, afirmou Barreto. A maior parte das carcaças apareceu ao longo de junho.
A morte de pinguins não é uma surpresa
A espécie, de nome científico Spheniscus magellanicus, vive em colônias na Patagônia argentina e, a partir de meados de abril, inicia uma longa migração rumo à costa brasileira. É nesse trajeto que muitos animais não resistem.
As aves costumam aparecer mortas nas praias em maior quantidade entre junho e julho, com pico em agosto, no auge do deslocamento. O que tem chamado atenção neste ano não é o fenômeno em si, mas a escala dele.
Entre os animais encontrados sem vida, a ampla maioria é de pinguins jovens. Cerca de 90% das aves da espécie achadas mortas em território catarinense são juvenis, exaustos depois de enfrentar a travessia pela primeira vez, conforme Barreto.
“A maior parte da mortalidade é causada pelo próprio esgotamento do animal do processo migratório. Tem o que os veterinários chamam de síndrome do pinguim encalhado, que são animais que já chegam muito fracos, com pouca quantidade de gordura, muito debilitados”, explicou o coordenador.
Para sustentar os dados, o projeto mantém equipes em campo todos os dias. Cada animal recolhido passa por exame, e os que estão em boa condição seguem para necropsia, procedimento que tenta apontar a causa da morte.
“Todo animal que chegar, a gente examina. Se ele estiver em boa condição, a gente faz uma necropsia, tenta identificar a causa de morte, e tudo isso é relatado”, disse Barreto.
Por enquanto, os cientistas não cravam o que puxou o número para cima neste ano. Segundo Barreto, a maior presença de pinguins no Brasil estaria ligada a uma combinação de fatores oceanográficos, que empurram os animais para a costa, e biológicos, ligados à quantidade de filhotes nascidos nas colônias argentinas. Como esse nascimento não faz parte do monitoramento brasileiro, a explicação ainda depende de cruzamento de dados.
A migração até meados de setembro
Só depois disso, com a temporada encerrada, os pesquisadores vão reunir os números aos dados ambientais do período para tentar entender o padrão. A equipe quer descobrir se os encalhes aumentaram em momentos de frente fria ou diante de alguma atividade humana na região.
“Quando passar a temporada, nós vamos juntar isso com dados ambientais que aconteceram nessa época. E aí a gente vai tentar entender o que foi esse padrão, esse processo de encalhes”, projetou o coordenador.
O PMP-BS também orientou quem se deparar com um pinguim na praia, vivo ou morto. A principal recomendação é acionar a equipe pelo telefone 0800 642 3341 e não devolver o animal ao mar, já que ele provavelmente está debilitado. Também não se deve oferecer comida, colocar o bicho em contato com gelo nem fazer carinho. O ideal é afastar animais domésticos e, se necessário, manter a ave em local seguro e aquecido até o resgate chegar.
O monitoramento das praias é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama, para as atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás na Bacia de Santos. Até o fim da temporada migratória, as equipes seguem em campo, e o balanço final deve trazer um retrato mais claro do que provocou o salto de mortes em 2026.





















