Era madrugada de sábado quando os cães do abrigo começaram a latir sem parar. O protetor conhecido nas redes como Protetor Paulo, que mantém na Grande Florianópolis um espaço com mais de 400 cães resgatados, sabia que tinha alguma coisa no portão. Foi a pé até lá, no frio, e deu de cara com a cena que já viu vezes demais: uma cadela pitbull amarrada, encolhida, com o rabo entre as pernas e o olhar de quem não entende o que está acontecendo.
Ao lado dela, quem abandonou deixou uma tentativa de disfarçar a crueldade. Havia um pote de ração, uma coberta e a coleira presa por dentro da grade do portão, para que a cadela não tivesse como fugir. Branca, com manchas caramelo, dócil, a pitbull tremia de frio na noite que castigava a região.
“Olha o que abandonaram aqui no meu portão”, relata o protetor, ainda no local, apontando para os itens deixados junto do animal. Ele conta que a cadela foi amarrada pela parte de dentro da grade, sem chance de se soltar sozinha.
Pedido de ajuda
O apelo veio logo em seguida. O protetor pediu ajuda para identificar de onde veio a cadela, apostando que uma pitbull com aquela aparência e coloração dificilmente passaria despercebida na vizinhança. “Alguém já deve ter conhecido, alguém sabe de algum vizinho que tinha esse cachorro, que agora vai desaparecer da casa da pessoa que abandonou aqui”, afirmou, pedindo que qualquer informação fosse repassada, ainda que de forma anônima.
Para ele, o abandono não é um caso isolado, e é aí que mora o desabafo. Deixar animais em frente ao abrigo virou rotina, e a repetição das cenas foi cobrando seu preço. Quem vive o resgate todos os dias já não consegue naturalizar o que vê: um animal saudável, bonito e criado por alguém, largado à própria sorte numa noite gelada.
Crime previsto em lei
O protetor faz questão de nomear o que aconteceu. Abandonar um animal, ainda mais exposto ao frio e sem condições de se defender, é maus-tratos, crime previsto em lei. “A gente tem que inibir, tem que prender essa pessoa, para que as pessoas não façam mais isso”, cobrou, dizendo conhecer delegados da causa animal que podem ajudar a apurar a autoria.
Enquanto a origem da cadela não é descoberta, ela permanece sob cuidados no abrigo, aquecida e em segurança, longe do portão onde foi deixada. A pitbull, que chegou tremendo e amedrontada, agora espera pela parte que deveria ter vindo desde o começo: alguém disposto a cuidar dela até o fim.





















