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Homem diz que deixou lugar onde “não tinha valor”, e hoje encanta cidade catarinense com desenhos na areia

Seu Afonso chegou a Itapema, vindo de Manaus, e três meses depois começou a desenhar mensagens de fé na areia da praia com um rastelo de ciscar lixo. Ele não cobra nada por isso.

Homem diz que deixou lugar onde “não tinha valor”, e hoje encanta cidade catarinense com desenhos na areia
Foto: Reprodução
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O sol ainda está subindo sobre a praia de Itapema (SC) quando a areia molhada já amanheceu escrita. Um coração enorme, a palavra “Jesus”, um “bom dia” em letras de forma que ocupam metros de faixa de areia. Quem passa cedo pela orla encontra a mensagem pronta e quase nunca vê o autor trabalhando. Ele começa antes.

Por trás dos desenhos está seu Afonso, morador que chegou à cidade em 12 de fevereiro deste ano, vindo de Manaus. Três a quatro meses depois de desembarcar no Litoral Norte catarinense, ele riscou o chão pela primeira vez, sem planejar nada. “Eu estava trabalhando e eu risquei o chão. Quando eu risquei o chão, eu senti”, conta. Desde então, repete o gesto todos os dias.

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A caneta é um rastelo

O instrumento não veio de loja de arte. É um rastelo, aquele de ciscar lixo. “Hoje, queridos, eu tenho um rastelo, onde você cisca o lixo, que é o meu instrumento, que é a minha caneta. E o meu caderno? Qual é a folha? A folha está aqui, a praia”, explica, apontando para a faixa de areia.

O traço, porém, não nasceu ali. Seu Afonso desenhava muito antes de conhecer Santa Catarina, só que no papel. “Eu desenhava no caderno, no papel, em parede”, diz. O tema era sempre o mesmo: montanhas e árvores. Um desses desenhos virou quadro na casa da filha dele.

A letra que nunca foi comum

Chama atenção de quem passa a caligrafia dos recados, toda em letra de forma, alta e regular. Não é escolha estética, é a única que ele sabe fazer. “Eu nunca aprendi a fazer letra comum, minha letra sempre foi de forma”, afirma. O tamanho do desenho depende do tempo que ele tem. “Elas são feitas rápido, mas quando eu faço com mais calma, elas saem excelentes.”

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A pergunta que mais ouve na beira da praia é sobre dinheiro. A resposta é sempre a mesma. “As pessoas perguntam se eu cobro. Eu falo assim: não, querido, eu não cobro. Mas é aquilo, você toca no coração das pessoas, quer me ajudar, seja bem-vindo. Mas eu não cobro nada, não tenho um valor pra dizer que isso aqui é louco.”

A garrafa de água de R$ 3 e de R$ 20

Para explicar por que sente que a vida virou depois da mudança, seu Afonso recorre a uma comparação simples, dessas que ele repete para quem para na frente do desenho. Uma garrafa pequena de água mineral custa R$ 3 no mercado. Na beira da praia, R$ 5. No aeroporto, chega a R$ 15, R$ 20.

“Qual a diferença aí, querido? A diferença está onde? No lugar”, resume. “E o lugar onde eu vivia, eu não tinha valor. Deus me pegou de lá, me trouxe pra uma cidade, cidade de Itapema, onde a cidade me recebeu.”

Sobre a vida que ficou para trás em Manaus, ele não suaviza. “Lá onde eu vivia, eu vivia uma vida miserável, desgraçada”, diz. Nas contas dele, tudo o que aconteceu depois estava preparado. “Hoje eu falo assim: o pai, ele preparou tudo isso pra mim.”

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“A minha recompensa vem do Senhor”

Junto dos desenhos, seu Afonso carrega um caderno com mensagens que escreve e lê para quem chega. Uma delas resume o que ele pensa sobre reconhecimento.

Ainda bem que tudo que eu faço pelas pessoas é de coração. Eu já recebi gratidão suficiente pra entender que o ser humano só valoriza o que convém. Não faço nada esperando reconhecimento, muito menos consideração. A minha recompensa, ela vem do Senhor.

Outra história que ele repete é a de um desconhecido que o abordou na rua. “Ele disse assim: o povo tem inveja de você. E surpreso eu perguntei: mas por quê? Eu não tenho nada. Ele respondeu com calma: não é pelo que você tem, é pelo que você é.” Segundo seu Afonso, o homem completou: “Você tem um coração bom, uma luz diferente, e isso incomoda muita gente.”

Menos de seis meses depois de chegar, ele já trata a cidade do Litoral Norte como endereço definitivo. “Eu amo todo mundo, não conheço todo mundo, mas eles já estão me conhecendo, e eu oro todos os dias. A Itapema é a minha nova casa”, afirma.

Os desenhos continuam aparecendo na areia todas as manhãs, até a maré subir e levar tudo embora. No dia seguinte, o rastelo recomeça.

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