As manhãs congelantes da Serra Catarinense têm proporcionado uma cena que impressiona: uma camada de gelo formada sobre o lombo do gado após noites de temperaturas negativas. Embora as imagens chamem a atenção nas redes sociais, elas revelam apenas parte da realidade enfrentada pelos pecuaristas durante o inverno.
Neste sábado (4), pelo menos 19 cidades de Santa Catarina registraram temperaturas abaixo de 0°C, conforme dados da Defesa Civil. A menor temperatura foi registrada em Bom Jardim da Serra, com -5,7°C. Na sequência aparecem Urupema (-4,0°C), São Joaquim (-3,0°C), Urubici (-2,4°C), Bocaina do Sul (-2,1°C), São José do Cerrito (-1,6°C), Palmeira (-1,1°C), Ponte Alta do Norte (-1,0°C), Fraiburgo (-0,9°C), Curitibanos (-0,8°C), Rio Rufino (-0,7°C), Brunópolis (-0,6°C), Otacílio Costa (-0,6°C), Lages (-0,5°C), Bom Retiro (-0,5°C), Campos Novos (-0,5°C), Monte Carlo (-0,4°C), Celso Ramos (-0,3°C) e Ibiam (-0,2°C).

Em entrevista ao Jornal Razão, a médica veterinária Alana de Carvalho, proprietária da clínica ALAMEL Vet e integrante da Secretaria de Agricultura de Bom Jardim da Serra, explicou que o frio intenso vai muito além do aspecto visual e representa um dos períodos mais críticos do ano para a pecuária. Segundo a veterinária, a preocupação dos produtores começa ainda no outono.
“É nessa época que os produtores iniciam o plantio das pastagens de inverno, como azevém e trevo, justamente para tentar suprir a falta de alimento quando chegam as baixas temperaturas. O pasto nativo acaba morrendo com o frio e os animais começam a perder peso.”
Ela explica que a falta de alimento provoca um efeito em cadeia, deixando os animais mais vulneráveis a doenças e reduzindo a produtividade das propriedades.
Atendimentos aumentam durante o inverno
Os dados, referentes aos dois últimos anos de atendimento da profissional, mostram que entre março e setembro são registrados, em média, de duas a três ocorrências veterinárias por semana, cerca de 15 a 20 atendimentos mensais.
Nesse mesmo período, a estimativa é de aproximadamente 10 mortes de bovinos até o fim de setembro, variando conforme o número de propriedades atendidas. As maiores perdas costumam ocorrer entre vacas de cria e vacas secas.

Os casos mais frequentes envolvem vacas de cria e vacas secas, justamente os animais que costumam apresentar maior fragilidade nesta época do ano.
“No inverno, a maior parte dos chamados é por fraqueza, doenças parasitárias bovinas, babesiose e hipotermia. Muitas vezes encontramos animais tão debilitados que já não conseguem levantar”.
Segundo a veterinária, a média de perdas chega a aproximadamente 10 animais mortos até o fim de setembro, embora o número varie conforme o tamanho do rebanho de cada propriedade.

O maior perigo é invisível
Apesar das imagens impressionantes, Alana explica que o gelo sobre o lombo nem sempre representa o principal problema.
As raças predominantes na Serra Catarinense são europeias, como o Devon, que desenvolvem uma pelagem mais espessa durante o inverno, oferecendo maior resistência às baixas temperaturas.
“Elas sentem o frio, mas suportam melhor do que as raças zebuínas. O problema maior acontece quando o animal já está enfraquecido pela falta de alimento ou por alguma doença”.
Nessas situações, o frio intenso agrava rapidamente o quadro clínico.
“Quando o animal está muito fraco, ele acaba deitando no campo. Se passa a noite exposto à geada, ocorre hipotermia, rigidez muscular e muitas vezes ele já não consegue mais levantar. Isso dificulta bastante o tratamento”.
Prejuízo para os produtores
Além das mortes de animais, o inverno também aumenta significativamente os custos das propriedades. Os produtores precisam investir em pastagens de inverno, silagem, suplementos nutricionais e alimentação complementar para manter o rebanho. Nas propriedades leiteiras, também é comum ocorrer redução na produção de leite durante o período de frio intenso.
Cuidados fazem a diferença
Em entrevista ao Jornal Razão, Alana reforçou que a prevenção é a principal ferramenta para reduzir as perdas.
“Os animais mais fracos e os bezerros devem permanecer em locais protegidos. A suplementação alimentar faz muita diferença, assim como manter vacinação e controle de parasitas em dia”.
Ela destaca que o monitoramento diário do rebanho é essencial para identificar rapidamente animais debilitados e iniciar o tratamento antes que as baixas temperaturas agravem o quadro.
Enquanto as paisagens cobertas de geada encantam moradores e turistas, para quem vive da pecuária o inverno representa um período de atenção constante. As imagens do gelo sobre o lombo dos animais impressionam, mas escondem uma realidade de trabalho intenso, aumento dos custos e perdas que desafiam os produtores da Serra Catarinense todos os anos.



























