Durante dias, um cachorro sobreviveu preso no fundo de uma fenda de cerca de 30 metros de profundidade, encravada nas pedras da Ponta do Papagaio, em Palhoça, na Grande Florianópolis. O local é um dos mais perigosos da região: o acesso só existe por rapel ou pelo mar, e as ondas fortes fechavam qualquer tentativa de aproximação. Lá embaixo, no escuro e com água entrando na cavidade, o animal, batizado de Pirata, esperava.
A história começou quando um morador da região descobriu o cachorro preso no local e gravou um vídeo mostrando a situação. Sem conseguir fazer o resgate sozinho, ele enviou as imagens para um aventureiro conhecido nas redes sociais por ações na natureza, que entendeu a gravidade do caso e iniciou uma corrente de solidariedade.
A mobilização cresceu rápido. Voluntários se apresentaram, pedidos de ajuda circularam pelas redes e cada tentativa de salvamento passou a ser acompanhada de perto por milhares de pessoas. O desafio, porém, era enorme. As ondas impediam a chegada pelo mar e tornavam qualquer operação extremamente arriscada.
Enquanto uma forma segura de alcançá-lo não aparecia, o Pirata recebeu alimento para resistir. Foram dias de preocupação, com o animal debilitado dentro da fenda e o mar avançando sobre a cavidade.
O resgate técnico
A virada veio quando a Vertical Life 8, escola de resgate em montanha de Florianópolis, foi acionada para avaliar a possibilidade de retirar o cão com segurança. Após o planejamento da operação e a avaliação dos riscos, a equipe definiu que o resgate era viável. No local, os resgatistas instalaram dois pontos de ancoragem na rocha para garantir a progressão e o acesso seguro à cavidade.
O diretor da escola e o resgatista Thiago Lovatto desceram até o animal. Os dois têm experiência com cães de trabalho, e isso fez diferença no momento decisivo: o Pirata estava debilitado e bastante reativo, e a focinheira disponível não se ajustou corretamente, o que exigiu uma técnica alternativa de contenção.
Contido, o cachorro foi equipado com uma cadeirinha especial para cães e içado de forma controlada pela equipe posicionada na parte superior da fenda. A pressa tinha motivo: o local era técnico e o mar estava subindo rápido, então a remoção precisou ser ágil.
Com o animal em segurança, os operadores retornaram pela corda, desmontaram todo o sistema e removeram as ancoragens. A operação completa, da saída dos veículos à volta, passando pela trilha, pelas ancoragens em árvores e rochas, pela descida, contenção e içamento, durou cerca de duas horas.
“O Pirata está salvo! Já na clínica veterinária fazendo todos os cuidados”
A frase é do aventureiro que liderou a mobilização, publicada logo após o fim do resgate. O cachorro segue agora em recuperação, sob cuidados veterinários.
Para a Vertical Life 8, a missão reforçou a importância do planejamento, da capacitação técnica e do trabalho em equipe. A escola agradeceu a todos os envolvidos pelo resgate realizado com segurança e eficiência, incluindo voluntários e equipes parceiras que se somaram à operação.
Mais do que salvar um cachorro, a história mostrou a força da solidariedade catarinense. Se o morador não tivesse encontrado o animal e a corrente de ajuda não tivesse se formado, dificilmente o final seria o mesmo. Hoje, o Pirata está em segurança, e a mensagem que fica vale para todos: quando pessoas se unem por uma boa causa, até o que parece impossível pode se tornar realidade.






















