A imagem é simples: dois amigos parados num mirante a 1.460 metros de altitude, no topo da Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina. Um pergunta se valeu a pena a quilometragem. O outro, ainda com o capacete na mão e a respiração curta, responde quase sem voz: “Meu Deus, repetiria mil vezes”. Em poucas horas, o vídeo postado por um motociclista que se identifica como Lopes na Estrada explodiu nas redes e transformou um passeio de moto entre dois amigos num retrato do que a estrada mais famosa do Brasil provoca em quem a vê pela primeira vez.
O viral nasceu de um gesto comum entre motociclistas. O dono do perfil, que já tinha subido a serra outras vezes, decidiu levar um amigo para conhecer o lugar de moto, num trecho da SC-390 que liga Lauro Müller, na parte baixa, a Bom Jardim da Serra, no alto do planalto catarinense. No vídeo gravado no mirante, o amigo aparece de jaqueta e capacete, visivelmente emocionado, tentando encontrar palavras para descrever o que estava vendo. A legenda da publicação resumiu o sentimento em uma frase, “No final sempre vai valer a pena”, e a reação do amigo se espalhou rápido entre outros motociclistas e turistas que disseram ter vivido a mesma sensação.
A história por trás da reação tem a ver com a própria geografia do lugar. A Serra do Rio do Rastro fica no sul de Santa Catarina e liga Lauro Müller, na parte baixa, a Bom Jardim da Serra, no alto. O trecho da SC-390 tem cerca de 24 quilômetros e acumula 284 curvas entre paredões de pedra, cachoeiras e mata nativa. Construída na década de 1950, era conhecida antes como “Serra do 12” e foi feita para ligar o Planalto Serrano ao Litoral catarinense. O resultado é uma das estradas mais fotografadas do país, eleita por publicações internacionais como uma das mais espetaculares do mundo.
O ponto da emoção
O ponto onde o amigo se emociona, no vídeo, é o trecho final da subida. O mirante principal fica no topo, a 1.460 metros de altitude, e oferece a vista de parte da estrada e da serra, com um desnível de 1.200 metros entre o mirante e a planície abaixo, em Lauro Müller. Em dias claros, é possível avistar parte do litoral catarinense ao longe. Quem sobe de moto, como os dois do vídeo, sente o impacto duas vezes: na curva, com o vento e o silêncio do alto da serra, e no momento em que para no mirante e olha para baixo.
A maior parte de quem visita a Serra do Rio do Rastro reage do mesmo jeito que o amigo do vídeo. Nos comentários da publicação, uma seguidora que já subiu cinco vezes escreveu que a sensação só melhora a cada volta. Outro comentário dizia que ali tinha acabado de nascer mais um apaixonado pela estrada. Outros motociclistas marcaram amigos para combinar a viagem. O autor do vídeo respondeu a quase todos.
Por que a subida impressiona
A subida não é simples. A inclinação fica sempre superior a 7% a partir do café que marca o início da parte mais íngreme, e nos últimos quilômetros pode chegar perto de 20% em alguns pontos. O piso é feito de uma mistura de concreto e asfalto cheio de frisos para escoamento da água, porque a região é cercada de Mata Atlântica e a pista está quase sempre molhada. No inverno há risco de formação de gelo e até de neve, o que pode bloquear o acesso por questão de segurança, e mesmo fora da temporada fria a neblina é comum e pode reduzir a visibilidade em poucos minutos. Quem sobe sem agasalho passa frio mesmo em pleno verão.
Justamente por causa do clima imprevisível, o passeio rende histórias diferentes em cada visita. No vídeo viral, a dupla aparece com o asfalto molhado e o céu aberto, com um mar de nuvens preenchendo o vale logo abaixo do mirante. É uma das imagens mais procuradas pelos visitantes, e depende de uma combinação rara de umidade, temperatura e horário. Quem chega na hora certa vê a estrada surgindo no meio das nuvens, como se estivesse acima delas. Quem chega em dia fechado às vezes não vê nada além da própria neblina.
A reação do amigo no vídeo, ainda que pareça exagerada para quem nunca subiu, é descrita por viajantes como a regra, não a exceção. A estrada liga Lauro Müller a Bom Jardim da Serra com uma variação de altitude que vai de 200 a 1.460 metros acima do nível do mar, e foi eleita pela revista americana CNN Travel como uma das estradas mais espetaculares do mundo. O contraste entre o calor do litoral, no início da subida, e o frio cortante do planalto, no topo, é parte do choque que provoca a emoção.
Cartão postal de SC
A repercussão do vídeo também ajuda a colocar a serra de novo no radar do turismo catarinense. O destino vive temporadas marcadas pelas estações do ano. O inverno atrai quem quer ver gelo e, em anos pontuais, neve. O verão atrai quem quer curtir as paisagens com a estrada mais limpa de neblina. Em qualquer época, a recomendação é a mesma: levar agasalho, abastecer antes de subir e respeitar o limite de velocidade nas curvas mais fechadas, onde acidentes com motos e carros são frequentes.
No fim da postagem que viralizou, o autor responde a um comentário dizendo que aquela já era a quinta vez dele na serra e que, mesmo assim, a sensação parece melhorar a cada visita. O amigo, que aparecia no vídeo sem palavras, voltou às redes algumas horas depois para agradecer publicamente. Disse que foi uma das experiências mais marcantes da vida dele, que vai guardar o passeio para sempre e que sente que acabou de descobrir uma paixão nova pela estrada. O motociclista que o levou respondeu em duas palavras: “Sem palavras”. A frase, no caso, virou o resumo do vídeo inteiro.
























