Depois de décadas convivendo com frio, umidade, risco de enchentes e medo constante, 22 famílias finalmente começaram uma nova etapa de vida em Seara, no Oeste de Santa Catarina. Nesta semana, moradores da área irregular conhecida como Marafon deixaram para trás casas improvisadas e passaram a ocupar residências novas no loteamento Morada dos Sonhos, no bairro Bela Vista.
Entre lágrimas, alívio e esperança, histórias emocionantes marcaram os primeiros dias das mudanças.
“Uma felicidade que nem dá pra imaginar. A gente não fazia ideia que um dia conseguiria sair dali”, contou emocionada Tânia Oto, moradora da antiga área há quase 40 anos.

Trabalhadora do setor de inspeção de um frigorífico da cidade, ela lembra do sofrimento enfrentado pela família durante os invernos rigorosos.
“A piazada ficava muito doente. Lá era muito frio e úmido. Agora vamos viver tranquilos, longe da sanga e do medo”, disse.
A realocação das famílias foi possível após um acordo firmado entre o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) e a Prefeitura de Seara. O termo determinou a construção das novas casas e a retirada dos moradores da área considerada irregular e de risco ambiental.
Durante toda a semana, caminhões, móveis, colchões, roupas e objetos carregados de memória tomaram conta das ruas do novo loteamento. Para muitas famílias, o momento representa a realização de um sonho que parecia impossível.

Natural de Pernambuco, o operador de produção José Ailson Soares Catão passou a primeira noite na nova casa ao lado da esposa e da filha Ana Catarina, de apenas quatro anos.
“Aqui o sol aparece cedo. Lá a gente vivia na sombra, cercado de árvores e muito frio. Agora temos mercado perto, escola, tudo mais acessível. É vida nova”, afirmou.
A dona de casa Iraci Jesuína Vitinski também celebra a mudança. Responsável pelos cuidados da neta com deficiência física, ela já pensa nos detalhes da nova rotina.
“Agora é organizar tudo, fazer um varal, ajeitar a casa do nosso jeito. O importante é que estamos tranquilos”, contou.

Outro momento emocionante aconteceu com o casal de idosos Mariano e Maria Muller, de 79 e 75 anos. Eles chegaram à nova residência acompanhados da filha Rosane Muller e dos primeiros objetos da mudança: um fogão a lenha e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.
“Esperamos muitos anos por isso. Quando chovia, o riacho transbordava e alagava tudo. Não tem comparação com a vida que vamos ter agora”, relatou Rosane.
Segundo o Ministério Público, além da vulnerabilidade social, as famílias viviam em uma área de preservação permanente, sujeita a alagamentos, queda de árvores e deslizamentos, situação agravada pela previsão de fortes chuvas e eventos climáticos associados ao fenômeno El Niño.
O promotor de Justiça Wesley da Silva Muller afirmou que o trabalho envolveu desde estudos socioambientais até o acompanhamento das mudanças.
“São trabalhadores, idosos, crianças e pessoas com deficiência que agora terão a oportunidade de viver com dignidade, segurança e estabilidade”, destacou.
Além da retirada das famílias, o acordo também prevê a recuperação ambiental da área anteriormente ocupada. O espaço abriga vegetação nativa e uma cascata e deverá passar por recuperação nos próximos meses.
























