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“Queremos voltar vivas pra casa”: mural feito por mulheres vira ato de resistência na Barra da Lagoa

Artistas e moradoras da Barra da Lagoa se uniram para transformar um muro em manifesto pela segurança das mulheres, inspiradas na memória de Catarina.

“Queremos voltar vivas pra casa”: mural feito por mulheres vira ato de resistência na Barra da Lagoa
Foto: Reprodução
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Passou das seis da tarde e Sara já está de volta pra casa com as duas filhas. Nada de parquinho, nada de volta no fim de tarde pra ver o movimento. Foi assim que a Barra da Lagoa, no leste de Florianópolis, deixou de ser o lugar tranquilo que ela conheceu quando chegou, há nove anos.

Artista circense e mãe solo de duas meninas, Sara é uma das mulheres que pegaram em pincéis, latas de tinta e ideias pra transformar um muro do bairro num manifesto. O mural, pintado a várias mãos, nasceu de um incômodo que virou rotina: o de calcular cada passo pela própria segurança.

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“A gente vive essa luta todos os dias, pra cada dia pensar mais na nossa segurança”, diz. “Era muito seguro quando cheguei. Hoje, passou das seis horas, a gente já vai pra casa, não sai mais domingo à noite pra dar uma volta, porque começou a ficar com medo de tantas coisas que aconteceram aqui.”

O recado da parede é esse. “A gente também quer ser livre, quer poder transitar pelo bairro tranquila, trabalhar e voltar viva. Coisas simples do cotidiano que a gente deveria fazer tranquilamente, e hoje, só porque somos mulheres, não podemos”, resume Sara. Pra ela, o medo tem nome: “que um dia sua filha nunca mais volte pra casa, ou que eu mesma não volte pra encontrar minhas filhas”. A pintura, diz, é “uma forma de resistência, de mostrar que a gente segue lutando e quer estar viva”.

A ideia partiu de Mayra, artista de lettering, que reuniu outras mulheres e artistas da Barra da Lagoa. “Idealizamos esse projeto pra trazer um pouco de consciência pro nosso bairro sobre o respeito às mulheres”, conta. O ponto de partida foi o caso de Catarina, que segundo o grupo mobilizou a comunidade. “Mexeu muito com o nosso coração. A gente sabe que poderia ser qualquer uma de nós. E pra não apagar essa memória, fizemos esse mural, pra não esquecer que ainda estamos na luta.”

No muro, cada mulher deixou sua linguagem. Muralista, Gabriela pintou flores e plantas, “a liberdade que a mulher quer sentir, florescer”, explica e ajudou a compor a figura de uma mulher gritando, “pra não sermos silenciadas”. Mayra assinou o lettering: “É importante usar as letras como ferramenta pra chamar a atenção das pessoas, botar elas pra ler, pensar e refletir sobre essa situação.”

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Artista visual e música, Luz pintou ao lado das outras e defende frases mais incisivas. “As mulheres do bairro precisam se unir pra denunciar as coisas que vêm acontecendo”, diz. Ela mira também numa cultura local: “Tem uma cultura muito forte de proteger o agressor porque ele é do seu bairro, porque você conhece desde criança. Essa cultura a gente veio pra acabar.” No mural, o grupo desenhou mulheres fortes em seus lugares — na praia, nadando e uma delas com uma cicatriz à mostra.

Luz enxerga a mesma transformação na vizinha Lagoa da Conceição. “Antes, Florianópolis parecia mais segura, tanto que atraiu bastante gente pra cá. A gente pegava carona, não tinha tanta desconfiança”, lembra. Ela pondera que parte da mudança é de percepção: “Pode ser que tinha mais violência antes também, mas a gente não sabia. Agora acontece uma coisa ali e já se fica sabendo pelo WhatsApp.” Ainda assim, diz, a resposta é a mesma: “Cada ação provoca uma reação. A ação das mulheres se juntarem agora é justamente pra combater a violência contra nós.”

Bruna chegou ao projeto por acaso, depois de conhecer Mayra. Participou pintando e ajudou com as tintas. “A mensagem é uma manifestação, acho que todas nós mulheres nos identificamos: é pedir proteção, conscientização contra a violência”, afirma. “Não tem mulher que vá ver esse muro e não se identifique com esse desejo de liberdade, de alegria, de poder viver tranquilamente.”

O mural foi feito de contribuições desiguais e somadas: umas vieram pintar uma parte, outras deram frases, ideias, tinta ou apoio, e outras se encarregaram de divulgar. “Cada uma contribuiu com um pouco”, resume Bruna.

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Gabriela traduz o que ficou no muro e no grupo. “Pra gente representa muito. Compartilhamos muitas ideias, mas a ideia sempre foi a mesma”, diz. Enquanto a tinta seca na parede da Barra da Lagoa, as mulheres que a pintaram dizem seguir na luta, pela segurança do bairro e pelo direito, como pediram no próprio muro, de ir e voltar vivas.

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