Às cinco da manhã, quando a maior parte da praia da Ponta dos Ganchos ainda dorme, uma pequena bateira a remo já corta a água escura rumo ao mar aberto. No comando, sozinha, como gosta, vai Nair Maria Cabral Mance, só que ninguém ali a chama assim. Para a comunidade pesqueira de Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis, onde ela nasceu e se criou, é a Naca, apelido que carrega desde menina, de quando começou a acompanhar o pai na pescaria.
Foi aos 11 anos que Naca lançou as primeiras redes por conta própria. De lá para cá se tornou a primeira e hoje a mais antiga pescadora profissional de Santa Catarina, ou “pescadeira”, como os catarinenses chamam as mulheres que tiram o sustento do mar. Na atividade, ela foi pioneira e segue sendo a maior autoridade. “Sou pescadora desde sempre”, diz.
Por 64 anos, o mar fez parte da vida de Naca. Foi nele que ela aprendeu as coisas da vida, trabalhou, enfrentou preconceitos e encontrou forças para criar os cinco filhos. “Pra ser pescador tem que gostar. Eu amo ser pescadora”, afirma. E completa: “O mar é um vício que entra na vida da gente e nunca mais sai.”

O mar de todo dia
Aposentada como pescadora profissional há anos, Naca não trocou a rotina. “Todo dia, vou para o mar às cinco da manhã e só volto perto do almoço. Mas já trago o que vou almoçar. O que sobra, eu vendo e ganho um dinheirinho”, conta. Hoje recebe um salário mínimo da aposentadoria e outro da pensão que o marido deixou. “Não vivo só disso, como antigamente. Não reclamo da vida.”
Viúva aos 35
A vida no mar ganhou peso quando o marido morreu. Naca tinha 35 anos e cinco filhos pequenos para criar. Criou todos pescando, sem parar. “Foi o mar que me ajudou a criar os filhos e a formar duas professoras”, diz, orgulhosa.
Na época, acordava de madrugada, deixava a comida pronta para as crianças no fogão a lenha e ia para o mar, sozinha, como sempre gostou. Na volta, descarregava a bateira, passava na peixaria para vender o peixe e corria para casa fazer o almoço. À tarde, voltava ao barracão de pau a pique montado na areia para limpar e remendar as redes do dia seguinte. Foi assim todos os dias, por anos.
Hoje o filho mais velho, também pescador, tem 52 anos; a caçula, uma das duas professoras que tanto a orgulham, tem 45. Naca é avó de doze netos e bisavó de quatro. “Todos foram criados graças ao que o mar me deu”, diz.
Uma história em livros
O domínio do ofício rendeu reconhecimento para muito além da praia. A trajetória de Naca como pescadora já foi parar em livros, pela inspiração que desperta, e ela já foi chamada para dar aula sobre redes de pesca na universidade. “Minha mãe é uma pessoa excepcional, em todos os sentidos”, diz a filha mais velha, também professora.
Entre os pescadores da região, quase todos homens, Naca é tratada quase como uma líder. É especialista em fincar e recolher sozinha redes de espera que às vezes passam de um quilômetro de extensão, trabalho que poucos encaram sem ajuda.






















