A palavra impossível é fácil de dizer. Difícil é encarar ela de frente. Num diagnóstico. Numa UTI. Num bebê que não senta, não engatinha e não sustenta a própria cabeça.
Foi assim que começou a história de Gabriel Ferrari e do filho, Lucca. O menino nasceu prematuro, passou 46 dias internado em uma unidade de terapia intensiva e, durante esse período, teve uma parada cardiorrespiratória que deixou o cérebro sem oxigênio. Os pais saíram do hospital sem nenhuma garantia, apenas com o aviso de que poderiam restar sequelas. Veio o diagnóstico de paralisia cerebral e, com ele, uma rotina diária de terapias que dura até hoje.
A maioria das histórias sobre deficiência para por aqui. Vira uma história de limite. A de Gabriel virou outra coisa.
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Aprender do zero
Há cerca de dois anos, Gabriel decidiu encarar com o filho a prova que muita gente considera o limite do corpo humano: o Ironman. São quase 4 quilômetros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e uma maratona inteira de 42 quilômetros no fim, tudo no mesmo dia.
O detalhe é que ele não sabia fazer quase nada daquilo. Não sabia nadar. Tinha acabado de aprender a pedalar. Aprendeu tudo do zero, peça por peça, para poder carregar o filho em cada trecho. Na água, Gabriel puxa Lucca em um bote. No ciclismo, leva o menino em um triciclo adaptado, bem mais pesado que uma bicicleta comum. Na corrida, empurra a cadeira de competição até a linha de chegada.
A chegada em Florianópolis
Neste domingo, em Jurerê Internacional, Florianópolis, a dupla cruzou a linha de chegada do Ironman Brasil, na 24ª edição da prova, que reuniu cerca de 2 mil atletas de 26 países. Pai e filho competiram na categoria PC/ID, a divisão de pessoas com deficiência do circuito, e fecharam a prova em mais de 15 horas, dentro do limite oficial de 17 horas.
Os vídeos da dupla ao longo do percurso viralizaram e emocionaram pessoas pelo país inteiro. O perfil oficial do Ironman Brasil dedicou uma homenagem aos dois com o bordão da marca.
Lucca, você é um Ironman. Gabriel, você é um Ironman. O amor é o sentimento que move tudo.
Quem carrega quem
Gabriel e Lucca são de Uberlândia, em Minas Gerais, e treinam na cidade, muitas vezes no Parque do Sabiá. A dupla se chama de “Ferrari Runners”, apelido que nasceu entre amigos por causa do sobrenome. A rotina de provas começou em corridas de rua e foi crescendo até virar o triatlo mais duro do mundo.
Em suas publicações, Gabriel sempre repete a mesma ideia: que carrega o filho, sim, mas que é o filho quem sustenta ele. Em uma delas, inverte a lógica de quem puxa quem e diz que tem um triciclo na frente o tempo inteiro e que não é ele que puxa, é o menino.
Nunca quis entrar para a história. Só queria mudar a história do meu filho. Mas Deus é tão perfeito que, enquanto lutávamos por uma vida, acabamos alcançando muitas outras.
Impossível nunca foi a prova de 226 quilômetros. Impossível era aceitar que existia um lugar aonde o filho não podia ir. O resto foi treino.























