Uma mãe de Florianópolis velou e enterrou o filho único, um jovem de 24 anos, em uma sexta-feira, e descobriu na mesma noite, em uma ligação, que o corpo dentro do caixão lacrado não era dele.
A vítima é Juliano Henrique Guadagnin da Silva, morto em um acidente de moto no bairro Rio Vermelho, em Florianópolis, no dia 9 de abril. Conforme nota oficial divulgada pela Polícia Científica de Santa Catarina (PCISC), houve um erro operacional na unidade do Instituto Médico Legal da capital durante a liberação dos corpos no dia seguinte. Três corpos foram envolvidos no erro, e duas famílias chegaram a velar e sepultar pessoas erradas.
O caixão lacrado
Na manhã do dia 10 de abril, a família foi orientada pela funerária responsável a realizar o velório com caixão lacrado, sob a justificativa de que o corpo do jovem estaria desfigurado e em condições impróprias para o preparo. Conforme depoimento público da mãe, gravado em vídeo pelo deputado estadual Sérgio Guimarães no Cemitério do Rio Vermelho, ela tinha imagens do filho feitas após o acidente que mostravam o rosto reconhecível, mas a determinação prevaleceu.
Tive a informação na funerária Recanto da Paz que o meu filho não poderia ser velado de caixão aberto e sim de caixão lacrado por ele estar desfigurado. Mas eles bateram o martelo e falaram, caixão lacrado, aceitei, trouxe o corpo, fiz o velório às 14, às 17 sepultei.
O sepultamento aconteceu na tarde da sexta-feira, no Cemitério do Rio Vermelho.
A ligação
Por volta das 18h30 daquela mesma sexta, ao chegar em casa após o sepultamento, a mãe recebeu uma ligação da funerária pedindo que retornasse com urgência. Foi informada de que o corpo enterrado horas antes não era do filho.
Conforme as informações apuradas pelas autoridades, a confirmação veio depois que outra funerária, a Capital, foi ao IML recolher um terceiro corpo e descobriu que ele havia sido entregue por engano à primeira funerária. O corpo do filho da família, por sua vez, ainda estava em uma das geladeiras do IML, em Florianópolis.
Brincaram com uma dor. A dor de uma mãe perder um filho jovem aos 24 anos já é sem palavras. E ter que fazer isso novamente, tirar forças, não sei de onde, para poder dar a dignidade ao meu filho.
A sugestão
Segundo o relato do gerente da Funerária Capital às autoridades policiais, ao chegar ao IML o agente foi informado por plantonistas da unidade de uma proposta para resolver a situação sem que a terceira família afetada percebesse o erro. A sugestão era a de que, como as urnas estavam lacradas, o corpo do filho da família que ainda estava no IML fosse entregue para o velório e sepultamento da terceira família, no lugar do corpo correto. A Funerária Capital não aceitou a proposta e formalizou a denúncia.
O fim de semana
Da sexta até o domingo, a família precisou aguardar um procedimento judicial para autorizar a exumação do corpo sepultado por engano no Cemitério do Rio Vermelho. No domingo, 12 de abril, o IML retirou o corpo e o restituiu à família correta. Em seguida, a família do jovem morto no acidente voltou ao IML, reconheceu o filho e marcou novo velório.
O segundo velório
Na manhã da segunda-feira, 13 de abril, ocorreu o novo sepultamento, dessa vez com o corpo correto. O velório começou às 8h30 e o enterro às 10h, no Cemitério do Rio Vermelho. Quatro dias depois do acidente que tirou a vida do jovem.
Juliano deixou duas crianças, uma menina de quatro anos e um bebê de três meses.
É por eles que eu estou aqui. Eu, mãe, o único filho que eu tenho. Eu não quero que outras famílias passem por isso.
Os outros dois
Conforme as informações apuradas pelas autoridades, os outros dois corpos envolvidos no erro são de Denner Dario Colodina, 29 anos, e Patrick Nunes Ferreira, 33 anos, mortos em um caso de duplo homicídio no bairro Serraria, em São José, na Grande Florianópolis. Como o Jornal Razão noticiou em abril, os dois foram encontrados mortos a tiros ao lado de um veículo carbonizado em uma área de difícil acesso.
Os três corpos estavam custodiados na unidade do IML em Florianópolis e foram liberados, em tese, no dia 10 de abril. O corpo de Denner foi entregue à família de Juliano e sepultado no Cemitério do Rio Vermelho. O corpo de Patrick foi entregue à família de Denner e sepultado no Cemitério do Itacorubi. O corpo de Juliano permaneceu no IML.
A descoberta partiu da Funerária Capital, que ao chegar ao IML para recolher Patrick foi informada de que ele havia sido entregue por engano à outra funerária. A partir daí, as três famílias afetadas foram comunicadas.
O alerta
Em depoimento, o deputado Sérgio Guimarães afirmou que esteve no IML de Florianópolis semanas antes do episódio, após receber denúncias sobre demora na liberação de corpos, e teria alertado a superintendência da Polícia Científica.
Há umas semanas eu estive no Instituto Médico Legal de Florianópolis. Nesse dia haviam nove corpos com apenas dois plantonistas. Eu avisei a superintendência e pedi e cobrei explicações. Isso vai dar problema. E deu.
A nota oficial
Em nota oficial, a PCISC reconheceu o erro operacional na unidade de Florianópolis durante a liberação dos corpos. Conforme o texto, o próprio sistema procedimental de controle interno foi responsável pela identificação da inconsistência e medidas foram adotadas após a detecção.
A nota informa também que a Corregedoria da PCISC instaurou apuração interna para identificar as causas e responsabilidades, e que foram iniciadas revisões nos protocolos relativos à custódia, identificação e liberação de corpos. A instituição realiza, anualmente, mais de 5 mil exames de necropsia em todo o Estado e classificou o ocorrido como uma exceção lamentável.
A apuração
A Corregedoria da PCISC apura as causas, as responsabilidades e as medidas disciplinares e preventivas cabíveis. Até a última atualização, não havia informação oficial sobre prazo para conclusão do procedimento, sobre eventual responsabilização de servidores ou sobre a sugestão de encobrimento atribuída a plantonistas do IML. A família de Juliano declarou que pretende acompanhar o caso.

























