Da escada do palco, quando o locutor anunciou “chef Lene, do estado de Santa Catarina, representando Itapema”, ela travou. Pensou em voltar. Desceu. “Quando eu desci aquela escada, eu disse assim: meus sonhos foram realizados. A partir de hoje as portas se abriram. Parece que eram várias portas se abrindo”, conta.
Lene Oliveira é chef de cozinha, professora de culinária e técnica em nutrição e dietética. Moradora de Itapema, no Litoral Norte catarinense, ela acaba de ser reconhecida nacionalmente no prêmio Mulheres Negras que Movem a Terra, realizado em Minas Gerais, escolhida entre tantas mulheres de Santa Catarina para representar o estado e a cidade que a acolheu.
A história começa longe dali. Há cinco anos, Lene deixou São Miguel do Guamá, no interior do Pará, para concluir os estudos em gastronomia. “Deixei pai, deixei mãe, deixei família pra vir em busca dos meus sonhos”, lembra. No Pará, diz ela, as pessoas sobrevivem, mas realizar sonhos exigia partir.
O caminho, porém, quase parou no meio. Já em Santa Catarina, Lene perdeu o pai, vítima de câncer. Logo depois, descobriu que a mãe estava com Alzheimer. “Você ligar para a sua mãe e ela não lembrar quem é você, é uma dor que dá vontade de largar tudo e ir embora”, desabafa. Pensou em desistir de tudo, inclusive do prêmio.

Foi a rede em volta dela que não deixou. Amigos, os professores da Casa Madre Teresa de Calcutá, onde ela dá aulas de culinária para crianças há três anos, e o amigo Reinaldo, que participou do MasterChef. “Você vai, você não vai desistir, porque eu estou aqui para te ajudar, te patrocinar, para fazer o que for possível”, disse ele. Um patrocinador de Itapema, que pediu para não ser identificado, também bancou a ida. E a idealizadora do prêmio, Alessandra Fabiane, cravou: “Esse prêmio foi feito para você.”
O reconhecimento carrega um peso a mais. Lene não esconde o racismo que enfrentou pelo caminho, e o lugar que deu a ele. “Cada racismo que eu sofria, eu dizia: eu vou chegar lá”, afirma. “Se eu tivesse levado o racismo para a tristeza, para a depressão, eu não estava aqui com o meu prêmio.”
Ela nem sabe quem a indicou, a organização não revelou. Sabe o que veio depois: além do troféu, Lene foi convidada para ser embaixadora da sexta edição do prêmio, em 2027, quando terá a missão de escolher uma mulher do Sul para ser homenageada. Também foi chamada para o evento Mulheres em Movimento, em Aracaju (SE), onde será palestrante e receberá, em dezembro, o troféu Fênix. E há dias acordou com mais um convite na tela do celular: o Prêmio Diamante Gastronômico, cujo local ainda será divulgado. “É uma realidade que me belisca, que eu tô sonhando”, brinca.
No dia a dia, Lene trabalha como personal chef, das compras do cliente até, como ela diz, “a última gota”: a cozinha limpa e organizada ao fim do serviço. Monta cardápios e planos alimentares sob medida, inclusive para quem tem restrições de saúde, e comanda uma equipe de chefs e garçons em eventos, de aniversários a casamentos e batizados. A carteira de clientes se espalha por Florianópolis, Balneário Camboriú, Brusque, Jaraguá do Sul e Joinville.
Do Norte, trouxe a cozinha paraense. Do Sul, fez questão de aprender tudo, até o entreveiro, prato típico que treinou sozinha em casa antes que alguém pedisse. “Eu tenho certeza que um cliente catarinense ou um cliente gaúcho vai me procurar, e eu já tenho que estar pronta para mostrar para ele que eu sei fazer”, explica. Quando o pedido veio, foi sucesso.
Do outro lado do balcão, o retorno chega em forma de mensagem no telefone: clientes dizendo que se orgulham de tê-la como personal chef. E a menina do interior do Pará, que se sentia “muito pequenininha”, hoje se descreve de outro jeito: “Hoje eu me sinto assim, mulherão, sabe, grande.”
Lene segue em Itapema, entre as panelas, as aulas na Casa Madre Teresa de Calcutá e a agenda de eventos, e já com o olho em 2027, quando pretende voltar ao palco do prêmio, desta vez como embaixadora. “Eu sou imensamente grata ao Sul, a Santa Catarina, a Itapema, pela oportunidade”, resume.





















