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“Meu filho está me chamando de senhor”: major da PMSC explica por que a fila por colégio militar só cresce

O major Tiago Ghilardi, comandante do colégio militar de Joinville, detalha a rotina da unidade, do ponto negativo por conversa no banheiro à formatura diária com hino, e conta como os pais reagem quando o filho muda em casa.

“Meu filho está me chamando de senhor”: major da PMSC explica por que a fila por colégio militar só cresce
Foto: Reprodução
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Um pai chega na porta do colégio, procura o oficial responsável e solta a frase que virou rotina naquele corredor: o filho começou a chamá-lo de senhor em casa. Nunca tinha feito isso antes. Para o major da Polícia Militar de Santa Catarina Tiago Ghilardi, comandante da unidade em Joinville, esse é o momento em que os pais entendem o que estão comprando quando matriculam um filho em colégio militar. Não é a farda. É o que a farda faz fora dos muros da escola.

A cena que o oficial descreve começa pequena. Ele chama um aluno, fala com ele, e a resposta vem em forma de grunhido. “Cabeça não fala, quem fala é a boca, esse uhum gemido também não é nada, fala sim senhor e não senhor”, diz Ghilardi, em entrevista ao podcast PodSim. A correção não é uma bronca isolada, é sistema. E é o sistema que, meses depois, produz o pai atônito na porta da escola.

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Ponto negativo por tudo

No colégio da Polícia Militar, cada desvio de conduta tem preço contabilizado. Aluno que não presta continência perde ponto. Aluno que não diz senhor perde ponto. Roda de conversa dentro do banheiro perde ponto. “Banheiro não tem, não era lugar pra conversa”, explica o oficial. Se ele chega e encontra o grupo conversando, todo mundo sai constatado, o que significa entregar o nome ao chefe de turma para que o ponto negativo seja computado.

O aluno recebe então um documento chamado justificativa de alteração de conduta. Ali ele pode se defender da acusação, apresentar sua versão, tentar derrubar o registro. Mas há uma cláusula que muda tudo: o pai precisa assinar. É esse detalhe que costura a família ao processo. O responsável não descobre o comportamento do filho na reunião de fim de bimestre, descobre no dia, com papel na mão.

Não existe chamada

A escola não faz chamada. A pergunta parece absurda até o oficial explicar o mecanismo: cada turma tem um chefe de turma, um aluno responsável por conferir quem está e quem não está. Ele passa a informação ao professor, e o professor já entra em sala sabendo quem faltou. “Essa é a ferramenta que eu sempre falo”, diz o major, que devolve a provocação: por que isso não pode existir num colégio comum? Um aluno por semana como chefe da classe, conferindo a presença e repassando ao professor. Era assim antigamente, lembra ele.

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Sete horas, formatura e hino

A rotina do ensino médio começa antes das sete. O sinal bate às sete em ponto, e quem chegou depois já está atrasado, com ponto negativo computado. Os alunos entram, se apresentam e formam. Todos os dias, faça sol ou faça chuva, porque a unidade tem ginásio coberto.

Depois vem o hino. E não é sempre o mesmo. O repertório inclui o Hino de Santa Catarina, o Hino de Joinville, a Canção da PM e a Canção do CFNP, revezados ao longo da semana. O resultado, segundo o major, é que qualquer aluno da escola sabe cantar todos eles de cabeça. Peça o Hino de Santa Catarina, ele canta. Peça o de Joinville, ele canta. Peça a Canção da PM, ele canta.

Terminado o hino, vem a palavra do dia. Há um mural com a palavra escolhida, e um aluno é designado para apresentá-la. Não basta ler: ele precisa saber o sinônimo e a tradução em inglês. Às segundas e às sextas, o programa inclui a leitura da semana.

O contraste que o oficial faz questão de marcar

O major compara com a escola em que estudou, onde uma vez por semana se cantava o Hino Nacional diante da bandeira. E compara também com o que viu recentemente em um colégio estadual, onde um menino de cerca de 9 anos tentou derrubá-lo do banco em que estava sentado. O relato é a moldura do argumento que ele defende: o que muda no aluno de colégio militar não é a nota, é a postura, e a postura volta com ele para dentro de casa.

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É o que explica o pai na porta da escola, sem saber direito o que fazer com um filho que agora o chama de senhor.

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