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Portobello, de Tijucas, negocia a venda da fábrica Pointer para grupo paulista em meio a prejuízo de R$ 291 milhões

Conforme Fato Relevante ao mercado, o Portobello Grupo autorizou a continuidade das negociações para vender a Pointer, sua fábrica em Marechal Deodoro (AL), à Cerâmica Almeida. A operação depende da aprovação do Cade.

Portobello, de Tijucas, negocia a venda da fábrica Pointer para grupo paulista em meio a prejuízo de R$ 291 milhões
Foto: Reprodução
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O Portobello Grupo, dono da maior operação de revestimentos cerâmicos do Brasil e uma das principais empresas industriais sediadas em Santa Catarina, confirmou ao mercado a intenção de vender a Pointer, a fábrica que a própria companhia descreve como a mais moderna e sustentável do país. A decisão, comunicada por meio de Fato Relevante na quinta-feira, 2 de julho, autoriza a continuidade das negociações para transferir a unidade à Cerâmica Almeida, do interior de São Paulo, num movimento que a empresa apresenta como reposicionamento estratégico, mas que ocorre no momento financeiro mais delicado da sua história recente.

Sediada em Tijucas, no Vale do Rio Tijucas, a Portobello informou que a operação está subordinada ao cumprimento de condições precedentes e à aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade. Enquanto o negócio não é concluído, a Pointer continuará operando normalmente sob gestão do grupo catarinense, com manutenção das atividades industriais e comerciais e da relação com clientes, fornecedores e colaboradores. Em comunicado conjunto, Portobello e Cerâmica Almeida afirmaram que a transação inclui os ativos e a marca Pointer e que ambas acreditam que o desenho preserva a trajetória e os atributos que consolidaram a marca ao longo dos anos. O valor da operação não foi divulgado.

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A fábrica em jogo

Ao contrário da matriz catarinense, a Pointer não fica em Santa Catarina. A fábrica está instalada no Distrito Industrial de Marechal Deodoro, em Alagoas, e foi inaugurada em 2015 para marcar a entrada da Portobello no Nordeste. A unidade produz cerca de 20 milhões de metros quadrados de revestimentos por ano com tecnologia de via seca, processo desenhado para reduzir o consumo de água e energia, e é apresentada pela empresa como a operação cerâmica mais sustentável do país. Segundo o governo de Alagoas, a planta responde por cerca de 300 empregos diretos e 900 indiretos no estado.

A troca de controle já vem acompanhada de promessa de investimento. Durante agenda no interior alagoano, o governador Paulo Dantas afirmou ter se reunido com representantes dos dois grupos e disse que a expectativa é de um aporte de R$ 100 milhões na ampliação da planta sob o novo dono.

A gente só consegue atrair empresas e o setor produtivo se, primeiro, nós olharmos no olho, falarmos a verdade, passarmos segurança e tivermos um comprometimento jurídico, institucional e administrativo.

Quem compra

A compradora não é uma iniciante. A Cerâmica Almeida foi fundada em 1923, em Santa Gertrudes, no interior paulista, onde começou fabricando tijolos e telhas e se firmou dentro do maior polo cerâmico do Brasil. Hoje o grupo figura entre os maiores fabricantes de pisos e revestimentos do país, com parques industriais que somam uma produção da ordem de dois milhões de metros quadrados por mês. A aquisição da Pointer daria à empresa uma base produtiva no Nordeste e uma marca já consolidada no segmento de acesso, voltado a quem busca design a preço mais baixo.

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O tamanho do rombo

O contexto que cerca a venda é o que dá a real dimensão da notícia. No balanço de 2025, a Portobello registrou prejuízo líquido de R$ 291,7 milhões, o pior resultado anual desde que a companhia passou a acumular perdas. A receita líquida, ainda assim, cresceu 8,2% no ano e alcançou R$ 2,606 bilhões, puxada pelo mercado externo, que passou a representar 25,9% do faturamento. O Ebitda somou R$ 321,2 milhões, e a dívida líquida encerrou o ano em R$ 995,8 milhões, com alavancagem de 3,09 vezes o Ebitda, ante 3,27 vezes em 2024.

A deterioração não é de um único ano. A Portobello registrou o seu primeiro prejuízo em 2023, quando o ciclo de obras enfraqueceu e a alta dos juros encareceu o custo da dívida, e desde então a companhia vem convivendo com resultados no vermelho trimestre após trimestre. Só no quarto trimestre de 2025 a perda líquida chegou a R$ 173,7 milhões, mais que o dobro do prejuízo registrado no mesmo período do ano anterior, pressionada pelo aumento das despesas financeiras e por efeitos contábeis ligados a tributos e à revisão de ativos fiscais diferidos.

O mercado leu o quadro com dureza. As ações da empresa, negociadas na B3 sob o código PTBL3, começaram 2026 na casa dos R$ 3,15 e recuaram para o patamar de R$ 1,75, uma desvalorização superior a 67% em doze meses. Sem distribuição de dividendos e com indicadores de lucro negativos, o papel acumula uma das piores performances entre as empresas industriais listadas no período.

Ativo já monetizado

Há um detalhe técnico que reforça a leitura financeira do negócio. No primeiro trimestre de 2026, antes mesmo de anunciar a venda, a Portobello já havia realizado uma operação de sale-leaseback do imóvel da planta de Marechal Deodoro, vendendo o bem e passando a ocupá-lo na condição de locatária, por R$ 102,5 milhões. No mesmo período, a companhia captou R$ 160 milhões junto ao BNDES Exim. As duas operações foram declaradas como medidas de reforço de liquidez e alongamento do perfil da dívida, o que mostra que o ativo alagoano já vinha sendo usado como instrumento de caixa antes de ser colocado à venda por inteiro.

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A tese oficial

Na versão da empresa, nada disso conta a história principal. O Portobello Grupo apresenta a saída da Pointer como parte de uma estratégia de foco em varejo e internacionalização, e não como desmonte. O argumento tem lastro nos números da própria companhia. Desde 2024, a frente de varejo, comandada pela rede Portobello Shop, superou a operação industrial em faturamento dentro do grupo. A fatia do varejo saltou de 17% para cerca de 37% da receita, e a rede, reformulada em 2020, cresceu 30% em 2025. A empresa também aposta na expansão nos Estados Unidos por meio da Portobello America, com fábrica no Tennessee, unidade que vem ganhando margem e representatividade.

Nessa leitura, vender uma fábrica premiada não seria sinal de fraqueza, e sim de escolha. A companhia estaria concentrando capital, energia e gestão nas frentes em que decidiu ser dominante, o varejo e o mercado externo, e abrindo mão de uma operação que, embora eficiente, deixou de ser central na estratégia. Ao ser questionada sobre a relação entre a venda e o quadro de endividamento, a empresa tem sustentado que uma coisa não exclui a outra, e que o contexto financeiro influencia decisões desse tipo sem que isso signifique que a Pointer seja um ativo ruim.

O setor no vermelho

O pano de fundo é um setor pressionado. A indústria de revestimentos cerâmicos sofre com a desaceleração das obras residenciais e com o crédito mais caro, combinação que apertou as margens de toda a cadeia, sobretudo nos produtos mais populares. Representantes do próprio setor relatam capacidade ociosa elevada, com fornos parados Brasil afora diante da queda na demanda da construção civil. É nesse ambiente que a líder do mercado optou por enxugar o portfólio industrial e direcionar recursos para onde enxerga maior retorno.

Por ora, nada está fechado. A concretização da venda depende da aprovação do Cade e do cumprimento das condições combinadas entre as partes, e não há prazo definido para a conclusão. Até lá, a Pointer segue produzindo em Alagoas sob o comando da Portobello. Para Santa Catarina, o recado é de continuidade com inflexão: a fábrica de Tijucas, que sozinha produz mais de 30 milhões de metros quadrados por ano, permanece como o coração da operação do grupo, enquanto a empresa que virou símbolo industrial do estado redesenha o próprio tamanho para atravessar a fase mais difícil da sua trajetória.

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