Os pescadores artesanais do litoral de Santa Catarina foram às praias em protesto nesta segunda-feira, depois que o governo federal encerrou a safra da tainha, e a cena tomou conta da areia: famílias reunidas, redes recolhidas e a tainha passando livre na frente, sem que ninguém pudesse lançar a canoa.
A revolta veio em seguida ao fim da temporada na modalidade de arrasto de praia, suspensa neste domingo, apenas 38 dias após a abertura, depois que as capturas atingiram 90% da cota de 1.332 toneladas autorizada para 2026. Em Quatro Ilhas, em Bombinhas, pescadores que faziam a vigia viram o primeiro cardume da proibição passar de um costão ao outro sem poder agir.
A cena foi descrita por uma das lideranças do movimento, em discurso emocionado para a multidão reunida na areia. Segundo o relato, pescadores choravam e oravam diante do que classificaram como uma ruptura inédita na história da comunidade.
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Pela primeira vez em 200 anos nessa terra, o pescador não pode fazer o que sempre fez, que é buscar o seu peixe no mar.
A mesma liderança prometeu que o movimento não vai parar e ameaçou paralisar a cidade caso a medida não seja revista. Disse que, se for preciso, os pescadores vão para as ruas e que dariam um prazo de 24 horas para uma resposta. O discurso terminou com um abraço coletivo na praia, reunindo quem estava no costão e quem acompanhava de cima.
O grito por “cota zero”
A pauta dos manifestantes é uma só: o fim da cota para o arrasto de praia. O argumento repetido no ato é o de que a modalidade não vai atrás do peixe em alto-mar, mas apenas recolhe o cardume que passa rente à arrebentação. “Nós não vamos pra alto-mar, nós não vamos atrás do peixe, o peixe passa aqui pra gente pegar”, afirmou uma das pessoas no microfone, defendendo a chamada “cota zero”, ou seja, a derrubada total do limite para a pesca de praia.
A dimensão familiar da atividade apareceu nas falas. Uma pescadora contou que o pai segue na pesca aos 84 anos, que ela própria está há mais de quatro décadas no ofício e que a filha também depende da tainha. “Como que pode agora acontecer isso? Isso nunca aconteceu”, disse, ao defender que toda a categoria se una pela revogação da cota.
A indignação tem um componente que os pescadores consideram injusto. Santa Catarina é o único estado do país com a pesca de arrasto de praia regulamentada e fiscalizada, com 419 licenças emitidas para a temporada, e por isso atinge a cota rapidamente, enquanto estados vizinhos sem controle estruturado seguem pescando sem reportar dados. A safra de 2026 ainda foi atípica pela fartura: a costa registrou lanços históricos, como os cerca de 20 mil peixes capturados em Bombinhas no fim de maio.
SC vai à Justiça
No plano político, o governador Jorginho Mello autorizou a Procuradoria-Geral do Estado a acionar a Justiça para tentar derrubar a portaria federal. Em Florianópolis, o prefeito Topázio Neto classificou a suspensão como um “golpe contra o pescador”, e lideranças de ranchos de pesca em Bombinhas começaram a redigir uma carta de apelo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até a última atualização, a portaria seguia em vigor e o movimento prometia manter a pressão nas praias e nas ruas.






















