“As construtoras vão quebrar na nossa frente, na nossa cara.” A frase, dita por um empresário dono de construtora que atua no litoral catarinense em um vídeo que passou a circular nas redes, resume o tom de um alerta que vem incomodando quem trabalha com imóveis em Santa Catarina. No centro da preocupação está uma prática que virou padrão na região: a venda de apartamentos parcelada em 100, 120, até 144 vezes, direto com a construtora, sem passar por banco.
O empresário questiona o discurso de que esse modelo estaria “democratizando o investimento”. Para ele, com os preços praticados na região, não haveria democratização nenhuma. “O que vai ser democratizado em breve vai ser a obra lá inacabada, que vai ser democratizada entre os compradores”, ironiza, apontando o risco de empreendimentos ficarem no meio do caminho e o prejuízo sobrar para quem comprou.
Um dos sinais que ele considera mais preocupantes é a inversão de preços no mercado. Segundo o empresário, hoje o imóvel pronto, novo e zero estaria mais barato do que o mesmo imóvel na planta ou em lançamento, uma distorção que, na visão dele, exigiria “um malabarismo gigante” para ser explicada.
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O ponto central do alerta é como as construtoras conseguem sustentar prazos tão longos de parcelamento. De acordo com ele, existiriam três cenários possíveis: a empresa estaria colocando capital próprio na obra, estaria antecipando recebíveis e pagando juros no banco, ou estaria lançando empreendimento em cima de empreendimento para sustentar o fluxo de caixa, criando o que ele chama de “bola de neve”.
Colocar dinheiro próprio ou usar alavancagem bancária seriam riscos administráveis, na avaliação dele. O problema estaria no terceiro cenário. “Lançar obra em cima de obra, confiando só nas vendas, buscando volume a todo custo, é um problema gigante que muita gente está empurrando para frente”, afirma. A busca por crescer a qualquer preço seria, segundo ele, a “grande armadilha” do setor.
O empresário faz questão de dizer que não se refere a nenhuma empresa específica. Ele afirma acompanhar de perto os mercados de Brusque, Balneário Camboriú, Itapema, Porto Belo e Bombinhas, e diz que o mesmo movimento estaria acontecendo nas cinco praças. “Isso aqui é um chamado para todos os envolvidos”, diz, defendendo um volume menor de lançamentos e um ritmo mais sustentável para o setor.
O recado mais direto é para os corretores, que segundo ele têm grande poder na hora de indicar um imóvel ao cliente. A orientação é fazer perguntas ao construtor sobre como será possível vender em 120 vezes e ainda entregar o prédio em cinco anos, e desconfiar de respostas fáceis. “Quando esse problema bater na porta, a lambança que vai acontecer no nosso mercado vai atingir todo mundo”, adverte.
O desabafo teve forte repercussão nos comentários da própria publicação, onde profissionais do setor endossaram a preocupação e relataram situações semelhantes. Um corretor que atua no mercado Minha Casa Minha Vida em Curitiba relatou dinâmica parecida: imobiliárias que explicariam de forma superficial os juros de obra da Caixa e a entrada parcelada corrigida pelo INCC para fechar a venda, deixando o comprador no aperto depois. Segundo esse relato, imóveis vendidos há cerca de três anos e entregues agora já sinalizariam índices altos de inadimplência, com o maior volume de entregas de 2023 em diante ainda por vir.
Para o empresário catarinense, o pano de fundo é a própria credibilidade do setor. “O mercado imobiliário é segurança. Se o mercado imobiliário não for mais visto como seguro, aí todos nós vamos chorar abraçados”, conclui, defendendo “menos volume e loucura, e mais pé no chão”. O alerta segue circulando e reacendendo o debate sobre a sustentabilidade do modelo de vendas praticado no litoral catarinense.






















